Eu poderia calar minha alma
No sono eterno,
ou queimar meus anseios
nas chamas do esquecimento,
Mas persigo o vento,
A incerteza
E cultivo em meu jardim a desilusão.
Eu poderia apagar dos meus sonhos
Qualquer vestígio que acusasse tua presença
Mas prefiro ir ao longe,
O mais próximo das nuvens
E me lançar abaixo
Como um vértice vertiginoso
Colorido e fosforescente,
Para ofuscar dos que me vêem
Esta falsa alegria, esta falsa virtude.
Eu poderia acabar com tudo e
Recomeçar uma vez mais,
Sem culpa.
Mas quantas vezes terei que recomeçar?
Por mais quanto tempo terei que lutar
Com o leão que existe em meu ser?
Tenho vontade de arrancar esta máscara
E despir a verdade a todos os que me cercam...
Mas quantos terei de magoar?
E qual o preço de recomeçar?
Por mais alto que voe minha alma
Por mais encharcadas
que estejam minhas negras asas,
Eu não desistirei de voar...
Por mais que eu tenha um sonho de Icaro.
Eu poderia dizer aos que dizem me amar
Que não quero mais este néctar amargo
De presença não presenciada,
Que não quero mais todos os meus desejos realizados,
Minhas vontades satisfeitas...
Não quero mais viver sufocada, asfixiada de amor exagerado,
Pois não tenho como responder a isto,
Não sou dessas criaturas que vivem a vagar
Cheias de certezas,
Gosto do meu limbo, da minha dimensão,
Onde só eu me acho e me encontro.
Quero a incerteza de não ser eu mesma
A cada amanhecer.
Tatiana Almeida

